A partir de hoje, semanalmente começarei a postar alguns exercícios de tiras em quadrinhos.
Segue o primeiro.
A partir de hoje, semanalmente começarei a postar alguns exercícios de tiras em quadrinhos.
Segue o primeiro.
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Por Caroline Rodrigues
Assim, a paixão pelo cinema que a “missão carioca” cultiva equivale ao sentimento transformador dos participantes da Nouvelle Vague francesa. A cinefilia atua em suas vidas como combustível para expandir, cada vez mais, a reflexão em veículo de acesso gratuito, a exibição fora de circuito tradicional e a produção independente.
Resposta dos diretores
Junho de 2009
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Matheus Souza tinha 19 anos quando decidiu fazer o longa Apenas o fim como trabalho para o curso de cinema da PUC-RIO. Levando a sua idéia a quem estivesse disposto a ouvi-lá, e com o apoio de uma professora-produtora Marisa Leão, uma verba de mais ou menos 4 mil reais concedida pela PUC, mais o dinheiro arrecadado em festas, com familiares, etc., os equipamentos da faculdade e o cenário praticamente pronto (a própria PUC), o diretor realizou um filme que, antes de qualquer coisa, parece ser um extremo exercício de tudo o que de essencial fez parte de sua formação, dos filmes a cultura pop que o cercou e, mais ainda, da nossa.
Com tantas dificuldades na realização de filmes atualmente no Brasil, e com as possibilidades do digital, que este seja “apenas o começo”, para todos nós que amamos o cinema.
Publicado em cinema nacional
No último sábado (30/05), aconteceu a re-inauguração do Cine Marabá, último dos integrantes da Cinelândia clássica do Centro de São Paulo, nos arredores do Largo Paissandu, fechado a quase 20 meses devido às reformas.
Publicado em cinema salas de cinema cinelândia marabá
A Mansão Roswell passa por reformulação mas já pode ser acessada num novo endereço.
Nos vemos lá!
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Ainda sobre o Festival de Cannes, que terminou nesse domingo com a Palma de Ouro indo para Das Weisse Band, de Michel Haneke, ficam os trailers de alguns do filmes do festival. A pergunta agora é quantos deles chegarão em terras tupiniquins.
Filme de encerramento: “Coco Chanel et Igor Stravinsky” de Jan Kounen (fora de competição)
Seleção oficial dos filmes que concorrem à Palma de Ouro
– “Los Abrazos Rotos” de Pedro Almodovar (Espanha)
– “Fish Tank” de Andrea Arnold (Inglaterra)
– “Un Prophete” de Jacques Audiard (França)
– “Vincere” de Marco Bellocchio (Itália)
– “Bright Star” de Jane Campion (Nova Zelândia)
– “Map of the Sounds of Tokyo” de Isabel Coixet (Espanha)
– “A l’Origine” de Xavier Giannoli (França)
– “Das Weisse Band” de Michael Haneke (Alemanha)
– “Taking Woodstock” de Ang Lee (Taiwan-EUA)
– “Looking for Eric” de Ken Loach (Inglaterra)
– “Spring Fever” de Lou Ye (China)
– “Kinatay” de Brillante Mendoza (Filipinas)
– “Soudain le Vide” de Gaspar Noe (França)
– “Bak-Jwi” de Park Chan-wook (Coreia do Sul)
– “Les Herbes Folles” de Alain Resnais (França)
– “The Time That Remains” de Elia Suleiman (Palestina)
– “Inglourious Basterds” de Quentin Tarantino (EUA)
– “Vengeance” de Johnnie To (Hong Kong)
– “Visages” de Tsai Ming-Liang (Malásia)
– “Antichrist” de Lars von Trier (Dinamarca)
Fora de competição
– “The Imaginarium of Doctor Parnassus” de Terry Gilliam (EUA)
– “Agora” de Alejandro Amenabar (Espanha)
– “L’Armee du Crime” de Robert Guediguian (França)
Sessões da meia-noite
- “A town called panic” de Stéphane Aubier e Vincent Patar (Bélgica)
- “Drag me to hell” de Sam Raimi (EUA)
- “Ne te retourne pas” de Marina de Van (França)
Sessões especiais
- “My neighbor, my killer” de Anne Aghion (França)
- “Manila” de Adolfo Alix Jr e Raya Martin (Filipinas)
- “Min ye” de Souleymane Cisse (Mali)
- “L’épine dans le coeur” de Michel Gondry (França)
- “Petition” de Zhao Liang (China)
- “Kalat Hayam” de Keren Yedaya (Israel)
Indicados do “Un certain regard”
- “Mother” de Bong Joon Ho (Coreia do Sul)
- “Irène” de Alain Cavalier (França)
- “Precious” de Lee Daniels (EUA)
- “Demain dès l’aube” de Denis Dercourt (França)
- “À deriva” de Heitor Dhalia (Brasil)
- “Kasi az gorbehaye irani khabar nadareh” de Bahman Ghobadi (Irã)
- “Los viajes del viento” de Ciro Guerra (Colômbia)
- “Le père de mes enfants” de Mia Hansen-Love (França)
- “Amintiri din epoca de aur” de Hanno H¶fer, Razvan Marculescu, Cristian Mungiu, Constantin Popescu e Ioana Uricaru (Romênia)
- “Skazka pro temnotu” de Nikolay Khomeriki (Rússia)
- “Dogtooth” de Yorgos Lanthimos (Grécia)
- “Tzar” de Pavel Lunguin (Rússia)
- “Independencia” de Raya Martin (Filipinas)
- “Politist, adjectiv” de Corneliu Porumboiu (Romênia)
- “Nang mai” de Pen-Ek Ratanaruang (Tailândia)
- “Morrer como um homem” de Joao Pedro Rodrigues (Portugal)
- “Eyes wide open” de Haim Tabakman (Israel)
- “Samson and Delilah” de Warwick Thornton (Austrália)
- “The silent army” de Jean Van de Velde (Holanda)
- “Air Doll” de Hirokazu Kore-Eda (Japão)
Publicado em cinema cannes 2009
Para alguém que se dedica quase que inteiramente ao estudo das imagens, sintetizar as idéias num único texto não é uma tarefa das mais fáceis. A velocidade é tamanha dentro dos fluxos de informação e as novas conexões de nosso cérebro já estão tão acostumadas com tal velocidade que o corpo praticamente grita ao menor sinal de relativa pausa.
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Aos filmes então.
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Estão sendo dias cheios, e acabei diminuindo drasticamente o número de postagens. Mas as coisas estão se acalmando e tentarei voltar ao objetivo de, no mínimo, um post por semana.
Por enquanto, deixo um trailer que não é nada menos do que lindo. Onde Vivem Os Monstros é o novo filme do diretor Spike Jonze (de Adaptação e Quero Ser John Malkovich) baseado no livro infantil do autor Maurice Sendak. Publicado originalmente em 1963, o livro acompanha Max, um garoto malcriado mandado para a cama sem jantar. No quarto, ele começa a imaginar um mundo exótico, a terra de Wild Things, povoado por criaturas selvagens estranhas, que recebem o menino como seu regente.
Trailers não salvam filmes, aliás, não é raro passarem uma idéia totalmente errada ou serem prévias muito melhores do que seus resultados finais. Mas não custa nada sonhar, assim como faz o garotinho Max.
Saí pesado da sessão de Entre Os Muros da Escola, exausto, com dificuldade de ligar alguns raciocínios. Percebi que o filme exigira demais de mim, que por quase duas horas tentei em vão encontras certos e errados para poder dormir com a consciência tranqüila. Felizmente, eu não encontrei nenhuma resposta cômoda.
Entre Os Muros da Escola, do diretor Laurent Cantet, mostra o dia-a-dia de um professor de francês e sua turma da 7ª série de um colégio público na França. Os alunos representam a pluralidade étnica resultante tanto da globalização quanto dos tempos da França colonizadora. Nesse aspecto, o filme mostra-se bastante atual, não se esquecendo do preconceito que cada grupo expressa a respeito do outro, ainda que maquiados pela imaturidade dos jovens.
Não há muito que dizer de “história”, pois o filme se desenvolve ora por fatos específicos que desencadeiam ações posteriores, ora por fatos isolados de algum dia qualquer durante o ano letivo.
Isso reforça a opção pela imparcialidade do diretor Cantet, ainda que acompanhemos o professor François Marin por todo o filme. Na verdade, mesmo que tente seguir o rigor das regras do seu trabalho, parece que Marin é um dos poucos que consegue enxergar o outro lado, o do aluno.
É essa questão que transforma o filme num exercício tão difícil. Provavelmente, se eu o tivesse assistido há 5 anos, não seria tão difícil escolher um lado como é agora. O filme nem mesmo parece exigir isso. A proposta é de representar o pequeno universo que dentro dos muros de uma escola – a única cena exterior é a do começo do filme, quando Marin toma seu café numa lanchonete – e como se relacionam seus principais habitantes, alunos e professores, que por si só já compõe mais dois outros universos que é o dos jovens adolescentes e o dos adultos. Para explicitar essa situação: a cena do professor que entra na sala dos professores esbravejando seus alunos e desabafando sobre suas frustrações enquanto seus colegas apenas o ouvem solidariamente até que, sozinho, ele se acalma; no outro lado, os alunos se juntam em protesto contra a possível expulsão de um colega, que protagoniza momentos de céu e inferno no mesmo ano.
Existe um balanço de forças durante o filme. Se os jovens são inexperientes e imaturos, não deixam de ser cruéis em suas palavras ou ações, assim como os professores que se dedicam à educação, mas esbarram na necessidade de cumprir as leis que lhes impõe as instituições da sociedade.
O grande objetivo (e problema) da comunicação acaba mesmo sendo o “outro”, a necessidade de se fazer entender pelo outro. Se a intenção era explicitar esse imenso ruído na comunicação entre professores e alunos, na difícil tarefa de conduzir a educação nas escolas (principalmente as não-particulares), o sentido ficou bem claro.
Publicado em cinema, Cinema francês
Com a tag entre os muros da escola entre les murs
Breve matéria divulgada no site da Veja (!!! não me xinguem).
Classe C e cinema: afastados pelo ingresso
Por Maria Carolina Maia
Recentemente, o cineasta Fernando Meirelles contou que, quando pensa em fazer um trabalho para o público brasileiro, prefere a TV. “Nem todo mundo pode ir ao cinema, mas quase todo mundo tem televisão em casa”, explicou. A declaração reflete um dos maiores obstáculos do cinema nacional, na visão dos profissionais de mercado: o valor do ingresso dificulta o acesso do público às salas – especialmente da classe C. “E esse é um público potencial do cinema nacional”, afirma Manoel Rangel, diretor-presidente da Agência Nacional do Cinema (Ancine).
Em São Paulo, por exemplo, paga-se em torno de 20 reais para ver um filme na tela grande. Quando se considera o custo do pacote transporte-entrada-pipoca, a barreira cresce.
Cinema em casa – Para Rangel, duas medidas permitiriam que o preço do ingresso caísse. Primeiro, a moralização do uso da meia-entrada, com a redução do volume de carteiras de estudantes falsificadas. Segundo, a expansão do número de salas. Além de pequeno, o parque exibidor brasileiro tem baixa capilaridade. São cerca 2.200 salas em todo o país, concentradas em três pólos, todos próximos: a cidade de São Paulo (com 10% dos cinemas), a cidade do Rio e o interior paulista. E, mesmo nesses mercados, há concentração de salas em shoppings centers.
“Quem ganha um salário mínimo nem passa perto dos shoppings, quanto mais das salas da rede Cinemark”, reclama o roteirista e diretor Paolo Gregori. “Assistir a um DVD em casa com a família é muito mais barato”, diz Maurício Ramos, produtor da VideoFilmes.
‘Ciclo virtuoso’ - Outra consequência do diminuto parque exibidor é que ele acaba por limitar a produção doméstica. Para o professor João Guilherme Barone, coordenador do Departamento de Produção Audiovisual da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), esse é mais um entrave para o cinema nacional. “O mercado exibidor está encolhido, só atende a 5% da população, e há um embate enorme para fazer circular os filmes brasileiros, o que é um absurdo, mas é real.”
A questão, em tese, é simples: se as salas de exibição fossem mais numerosas e mais bem distribuídas, poderiam receber uma plateia maior, em todo o país. O aumento na venda de ingressos, por sua vez, permitiria uma queda no preço das entradas - viabilizando um incremento na demanda e na produção. De acordo com Ramos, da VideoFilmes, longas de ficção precisam de 150.000 espectadores para dar retorno ao produtor. Para dar lucro, é preciso passar, pelo menos, de 300.000 pagantes. Ou, com segurança, de 500.000.
Produção x crise - Rangel, da Ancine, aponta ainda outros obstáculos a serem superados pela produção cinematográfica nacional. “É preciso que os nossos produtores saibam com que parcela do público querem dialogar e os distribuidores, como atingi-la.” Segundo ele, a agência não estipula metas para a participação brasileira na bilheteria, mas procura estimular a produção. No final de 2008, a Ancine lançou o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que neste ano deve injetar 74 milhões de reais no mercado. Além disso, o mecanismo de incentivo - principal fonte de recursos dos produtores locais - pode irrigar o setor com cerca de 150 milhões de reais.
Esta, aliás, é uma questão que preocupa alguns representantes do mercado. Para Bruno Wainer, da distribuidora Downtown Filmes, neste ano a produção nacional pode padecer de uma redução de recursos, por conta da crise. “Se as empresas lucrarem menos, pagarão menos impostos e haverá menos dinheiro para captar”, resume. A questão é um efeito do principal mecanismo de fomento do cinema doméstico: a renúncia fiscal, pela qual as empresas abatem do imposto de renda devido aos cofres públicos o montante que investem nas produções nacionais.
Lula – Rangel admite que o perigo de redução de recursos existe. Mas sustenta o discurso do governo federal, segundo o qual o Brasil, no meio da pneumonia global, vai pegar no máximo um resfriado - uma espécie de versão cinematográfica das metáforas do presidente Lula. “Há de fato a hipótese de que este ano, por causa da crise, a captação diminua. Mas, embora cresça menos, o Brasil vai continuar se expandindo. Então, as empresas vão ter dinheiro de renúncia fiscal para investir em cinema.”
Ele garante ainda que há projetos que já concluíram sua captação de recursos no final de 2008, em meio à instabilidade financeira internacional. É o caso de Luz nas Trevas, a continuação de O Bandido da Luz Vermelha, produzido pela atriz e diretora Helena Ignez, viúva de Rogério Sganzerla - que rodou o longa original e escreveu o roteiro do segundo. Agora, o personagem-título é encarnado pelo cantor Ney Matogrosso. A direção é dividida entre Helena e Ícaro Martins.
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Uma das palavras que parecem vir à mente quando se lê a sinopse do filme O Lutador é a palavra redenção. Homem que já teve seus dias de glória no passado e agora caminha no esquecimento recebe uma segunda chance de reparar alguns erros e voltar ao topo. Seria uma típica história de reparação, não fosse um importante fato: a tal redenção chega sim afinal, mas para o diretor Darren Aronofsky e com ainda mais força para seu ator protagonista, Mickey Rourke. E a segunda chance do lutador do título, bem, apesar das aparências, não há segundas chances aqui.
Randy “The Ram” Robinson (Mickey Rourke) teve seu auge como lutador de wrestling (luta – livre por aqui) na década de 80, e foi caindo no esquecimento durante as décadas seguintes. Vive agora da fama do passado, respeitado por todos os companheiros e sendo aclamado nos pequenos ginásios ou ringues improvisados onde ainda consegue “atuar”. Após uma luta, Randy tem um enfarte, e é aconselhado a não lutar mais, pois seu coração, após anos de bebidas, lutas, uso de anabolizantes e tudo o mais que o instinto autodestrutivo do personagem pudesse suportar, está agora fraco demais e não se sabe até que ponto pode agüentar. Aparece aqui a oportunidade para que ele refaça sua vida, se aproximando da filha Stephanie (Evan Rachel Wood) que negligenciou durante anos, da stripper Cassidy (Marisa Tomei) e que se estabeleça em seu emprego “normal” no setor de frios e açougue de um supermercado. Mas estamos na época da comemoração de vinte anos da luta entre The Ram e o “Aiatolá”, ponto máximo de sua carreira, e um festival será organizado para oferecer a revanche. Randy vê aqui a oportunidade de resgatar os anos gloriosos.
A premissa é simples e, aparentemente, até clichê, mas ao se assistir ao filme, percebe-se estar diante de uma obra de qualidade única no cinema, a começar pelo seu personagem. Randy não está em busca de redenção, quer apenas fazer o que gosta, a única coisa que o faz se sentir vivo, mas quando o médico o aconselha a não lutar mais, ele é obrigado a olhar para a força do tempo que passa, para o próprio caminho que trilhou e para a vida que levou nos últimos vinte anos. Perceber que o personagem, ao longo do filme, vai tomando consciência de que o tipo de vida que leva e seus valores pertencem à outra época é tocante, pois Randy ama de verdade o “seu tempo”, mas é obrigado a caminhar por aí como uma relíquia, como espólio de algo que já passou. Se hoje em dia ele simplesmente vaga por aí, não há forma melhor de mostrar isso do que com a câmera na mão. Ela o segue por todos os lados, permitindo que ele escolha o caminho, o que reforça o sentimento de deslocamento, uma vez que são longos os corredores pelos quais ele costuma passar.
O contraste de O Lutador com os outros filmes da carreira de Darren Aronofsky é assustador. Se ele apostava numa linguagem extremamente fragmentada e psicológica em Pi e Réquiem Para Um Sonho, ou pela fantasia estética- visual e introspecção em Fonte da Vida, aqui o clima é mais seco, as cores, com exceção dos “colantes” dos lutadores e do sangue, são frias, tudo é excessivamente duro, tudo excessivamente pesado, como a carga que Randy carrega. Mas é ainda mais impressionante encontrar nesse cenário áspero, espaços para o simbolismo. Quando se pensa que a aposta seria em mais uma obra calcada no que parece ser lei hoje em dia, o realismo, há a cena do corredor onde The Ram veste seu “uniforme” de trabalho, atravessa os corredores escuros, se alonga fisicamente, o grito do público cresce numa constante, ele hesita por alguns instantes e… tudo se silencia, pois ao invés do ringue, temos o balcão do supermercado. Doído demais. Em 2006, Aronosky saiu injustamente sobre um mar de vaias por Fonte da Vida. Críticos de todo o mundo acusaram o jovem diretor de perder a mão (isso apenas em seu terceiro filme), que ele era pretensioso e que nunca mais faria nada na relevância de Réquiem… e Pi. Saiu em 2008 com o Leão de Ouro em Veneza e, só não foi indicado à melhor diretor e melhor filme em outras categorias porque as organizações não cessam de fazer injustiças a torto e a direito (Christopher Nolan que o diga).
Não por acaso, após Veneza, a divulgação de O Lutador se focou na interpretação de Mickey Rourke. Numa escalada freqüente de bons papéis na década de 80, trabalhando com bons diretores e sendo correto em suas atuações, o ex-galã entrou na década seguinte fazendo uma série de escolhas erradas. Abandonou a carreira no cinema para se dedicar ao boxe, fez muitas plásticas, envolveu-se em escândalos dos mais diversos e, quando tentou retornar ao ofício de ator, fez algumas escolhas equivocadas. Mas nos últimos anos, começou a ser relembrado por alguns diretores e, se o Marv de Sin City lhe rendeu certa atenção, é apenas com o filme de Aronofsky que ele retorna definitivamente a atuação, no desempenho de sua vida. Até poderia se valer da máxima de que a vida se confunde com a ficção em O Lutador, porém, Randy não é Rourke, mas Rourke sabe que poderia ser Randy. É preciso coragem para olhar para a própria vida e rever as decisões erradas que se tomou. Em seus discursos de agradecimento pelos prêmios que vêm colhendo pela sua atuação no filme, Rourke não deixa de lado o passado e reafirma que está buscando seu caminho novamente, assumindo problemas das decisões que tomou na última década. 90´s sucks! diz Randy, 90´s sucks! deve pensar Mickey Rourke. Sua entrega física ao personagem The Ram é tão impressionante quanto os limites físicos que podem chegar os lutadores de wrestling para entreter o seu público (como cortar a si mesmo). E seu olhar diz tanto quanto suas palavras, que não são menos fortes. “Sou apenas um pedaço moído de carne, e mereço ficar sozinho. Só não quero que você me odeie” diz ele a sua filha Stephanie. Ou quando ele conta sofre seu enfarte para a personagem de Marisa Tomei (linda e perfeita no papel) e ela apenas diz que vai ficar tudo bem, mas que ela tem que voltar ao trabalho. Quanto ao olhar, difícil não se comover com o terror nos olhos de Randy ao constatar, numa espécie de convenção da velha guarda da luta – livre, que seus companheiros estão todos velhos, decadentes, sozinhos, com a saúde comprometida, quase como se encarasse um espelho colocado forçadamente a sua frente.
O ritmo do filme varia entre o intenso e o pacato, mas há algo ali que conduz o espectador o tempo todo, sem que se saiba ao certo o que é isso. O brilhantismo da fita de Darren Aronofsky e Mickey Rourke espera até os seus últimos minutos para se revelar. E é num momento catártico onde, enquanto Randy se agiganta, somos colocados finalmente à distância, apenas para assistir ao momento e permitir que o personagem viva aquela emoção sozinho, que tudo o que foi mostrado até aquele momento se torna inesquecível. Não me lembro de um final tão coerente e que dê tanto sentido a tudo o que foi construído até então. É o momento de redenção do diretor, que não devia nada a seus críticos, mas deve ter tido sua auto-estima tão abalada que precisava provar algo a si mesmo. É o momento de redenção do ator, que não só precisava provar algo a si mesmo, quanto desejava agradecer a todas as pessoas que um dia acreditaram nele, além daqueles que nunca o abandonaram.
Mas não é a redenção de Randy “The Ram” Robinson. Seu tempo já passou, ele já fez demais. Só o que importa agora é aquela sensação, aquele momento, aquilo que ele sabe fazer. O que vier depois não importa. Ele nos deixa comovidos com sua presença, nos dá força, e deixa para nós a última palavra, o último grito. Pois ele é apenas um lutador.
Fica na letra da linda canção de Bruce Springsteen o que reflete o que é, desde já, um dos melhores filmes do ano e, particularmente, um dos melhores filmes que o cinema já ofereceu.
Bruce Springsteen – The Wrestler
Two, three, four
Have you ever seen a one trick pony in the field so
happy and free?
If you’ve ever seen a one trick pony then you’ve seen
me
Have you ever seen a one-legged dog making his way
down the street?
If you’ve ever seen a one-legged dog then you’ve seen
me
Then you’ve seen me, I come and stand at every door
Then you’ve seen me, I always leave with less than I
had before
Then you’ve seen me, bet I can make you smile when the
blood, it hits the floor
Tell me, friend, can you ask for anything more?
Tell me can you ask for anything more?
Have you ever seen a scarecrow filled with nothing but
dust and wheat?
If you’ve ever seen that scarecrow then you’ve seen
me
Have you ever seen a one-armed man punching at nothing
but the breeze?
If you’ve ever seen a one-armed man then you’ve seen
me
Then you’ve seen me, I come and stand at every door
Then you’ve seen me, I always leave with less than I
had before
Then you’ve seen me, bet I can make you smile when the
blood, it hits the floor
Tell me, friend, can you ask for anything more?
Tell me can you ask for anything more?
These things that have comforted me, I drive away
This place that is my home I cannot stay
My only faith’s in the broken bones and bruises I
display
Have you ever seen a one-legged man trying to dance
his way free?
If you’ve ever seen a one-legged man then you’ve seen
me